Introdução
A convergência entre neurociência e práticas artísticas contemporâneas tem gerado projetos que desafiam fronteiras disciplinares e levantam questões éticas, técnicas e estéticas. A reportagem da Scientific American sobre a exposição Revivification, que apresenta uma composição póstuma atribuída ao compositor experimental Alvin Lucier e que, segundo a matéria, utiliza música gerada por células cerebrais derivadas do sangue do compositor falecido, tornou-se um caso paradigmático dessa interseção (PARSHALL; FELTMAN; MWANGI; SUGIURA, 2025). Este texto oferece uma análise detalhada do projeto, discutindo os procedimentos científicos plausíveis, os mecanismos de sonificação, as decisões curatoriais, as implicações éticas e jurídicas, bem como as possíveis repercussões para as áreas de bioarte e neuroética.
Contexto artístico: Alvin Lucier e a tradição sonora experimental
Alvin Lucier (1931–2021) foi um compositor norte-americano reconhecido por obras que exploram propriedades acústicas do espaço e da percepção sonora, destacando-se peças como I Am Sitting in a Room, na qual as características físicas de uma sala se tornam parte do material musical. A atribuição de uma composição póstuma que envolve atividade celular para a criação sonora coloca a obra no prolongamento da obra de Lucier, ao mesmo tempo em que questiona o que significa autoria, presença e continuidade na prática musical contemporânea.
A legenda curatoral e a própria escolha de exibir um trabalho que combina células humanas e sistemas eletrofisiológicos remetem a uma longa história de artistas que empregam materiais vivos e técnicas biomédicas para explorar a condição humana, a relação entre organismo e máquina, e o estatuto ontológico da arte. Assim, a peça em Revivification pode ser vista tanto como extensão estética das investigações lucierianas quanto como um símbolo do diálogo entre arte, ciência e biotecnologia.
O que a reportagem relata: escopo e afirmações principais
Segundo a reportagem da Scientific American, a exposição na Austrália permite aos visitantes ouvir música gerada por células neurais derivadas do sangue de um compositor falecido, atribuída a Alvin Lucier (PARSHALL; FELTMAN; MWANGI; SUGIURA, 2025). A matéria apresenta o projeto como um experimento curatorial e artístico que utiliza sinais elétricos produzidos por culturas celulares para criar paisagens sonoras acessíveis ao público.
A reportagem também observa o caráter complexo e sensível desse tipo de empreitada, mencionando aspectos práticos e reações do público. Como forma de contextualizar o relato, este artigo traduz e amplia as questões centrais levantadas pela matéria, avaliando a viabilidade científica das técnicas alegadas e detalhando a cadeia de decisões que viabilizam a passagem de atividade neuronal em petri para uma experiência auditiva em um museu.
Métodos possíveis: de sangue a neurônios, e de neurônios a som
A afirmação de que a música foi “gerada por células neurais derivadas do sangue” requer explicitação técnica. Existem ao menos dois caminhos biotecnológicos plausíveis para produzir células com atividade elétrica a partir de sangue humano: a utilização de células mononucleares do sangue periférico como fonte para reprogramação em células pluripotentes induzidas (iPSCs), e a diferenciação subsequente dessas iPSCs em tipos celulares neuronais; ou o uso de linhagens celulares viáveis obtidas previamente e associadas geneticamente ao doador, quando amostras pré-mortem estavam disponíveis.
A técnica de reprogramação para iPSCs tornou-se rotineira em laboratórios de biologia celular nas últimas décadas: células somáticas (incluindo células sanguíneas) são tratadas com fatores de reprogramação que as retornam a um estado pluripotente, permitindo sua diferenciação em neurônios. Uma vez diferenciadas, essas culturas podem exibir atividade elétrica espontânea ou induzida. Para captar sinais elétricos é comum o uso de microeletrodos em arranjos conhecidos como Microelectrode Arrays (MEAs), que registram potenciais de ação e padrões de disparo em redes neuronais cultivadas.
A transformação desses sinais em som — processo conhecido como sonificação — envolve mapeamentos matemáticos e algoritmos que convertem frequências, amplitude, taxa de disparo ou padrões temporais em parâmetros musicais como tom, timbre, ritmo e dinâmica. A curadoria artística e a engenharia sonora definem como esses mapeamentos ocorrerão, o que implica decisões estéticas que mediam — e não simplesmente traduzem — a atividade biológica em experiência musical.
Aspectos técnicos detalhados: gravação, processamento e reprodução
Os componentes técnicos típicos de uma instalação que sonifica sinais neurais incluem:
1. Cultura celular e ambiente: as culturas neuronais requerem ambiente controlado (incubação, nutrição com meios apropriados, controle de temperatura e CO2). Para demonstração pública, a manutenção e proteção dessas culturas exigem protocolos de biossegurança.
2. Captação de sinais: MEAs ou eletrodos intracultivo permitem a detecção de atividade elétrica. A resolução temporal e espacial desses registros determina o tipo de informação disponível para sonificação.
3. Aquisição e filtragem de dados: sinais brutos são condicionados (filtragem para remover ruído) e quantificados. Técnicas de análise de spike trains e eventos de campo são empregadas para extrair métricas relevantes.
4. Mapeamento e algoritmos de sonificação: parâmetros biológicos (freqüência média de disparo, sincronização entre canais, padrões de bursts) são mapeados para parâmetros sonoros. O projeto sonoro pode optar por mapear rigidamente (cada eletrodo gera um timbre específico) ou por utilizar transformações estocásticas e algorítmicas para compor texturas sonoras.
5. Reprodução e experiência do visitante: o som pode ser amplificado em alto-falantes, discutido por guias ou imerso em arquitetura sonora específica. Perguntas sobre latência, interatividade e responsabilidade curatoral emergem nessa etapa.
Cada uma dessas fases implica escolhas que afetam a interpretação do que significa ouvir “a música das células”, e ressaltam que a obra final é produto de um processo híbrido — biológico, técnico e artístico.
Curadoria, autoria e autenticidade
A atribuição de autoria a Alvin Lucier em uma obra que depende fortemente de processos biológicos e decisões curatorias provoca debate. O status de “composição póstuma” pode ser entendido de diversas maneiras: como execução de instruções explicitamente deixadas pelo compositor antes de sua morte; como uso de material biológico associado ao sujeito para criar uma obra nova; ou como um gesto curatorial que invoca o nome do compositor por afinidade estética.
Do ponto de vista da teoria da autoria, a peça em Revivification sublinha que a autoria contemporânea frequentemente se estende para além da figura individual do artista. No entanto, também levanta questões sobre consentimento informado e legado artístico. Em especial, se o uso de células associadas a uma pessoa específica for realizado sem documentação explícita de consentimento para essa finalidade, a atribuição póstuma pode ser contestada eticamente.
Ética e regulação: consentimento, dignidade e uso post-mortem de tecidos
O uso de material biológico humano em contextos artísticos impõe obrigações éticas claras. Entre os pontos centrais estão:
– Consentimento prévio: é crucial verificar se o doador autorizou o uso do material para fins artísticos ou de pesquisa. A ausência de consentimento explícito para determinadas aplicações é frequentemente considerada problemático em termos éticos e legais.
– Identificação e privacidade: mesmo cândido, o material biológico pode estar associado a informações pessoais que suscitam questões de privacidade e anonimização.
– Dignidade e respeito aos mortos: práticas que instrumentalizam o corpo ou tecidos de uma pessoa falecida podem ser vistas como atentatórias à dignidade, dependendo do contexto cultural e das intenções curatoriais.
– Biossegurança e bem-estar público: a manutenção de culturas vivas em exibição pública exige conformidade com regulamentações locais de biossegurança para evitar riscos ambientais ou de saúde.
Em termos regulatórios, a legislação varia entre países. Na Austrália, a utilização de material humano em pesquisa ou exposições artísticas costuma exigir aprovação institucional e concordância ética, além de seguimento de normas de biossegurança. A presença de um museu como agente curatorial sugere que procedimentos institucionais foram considerados, mas a transparência sobre consentimento e autorizações é imprescindível.
Interpretações estéticas e filosóficas: agência biológica e autonomia artística
Uma das questões centrais levantadas pela peça é a ideia de agência: podem culturas neuronais ser consideradas coautoras de uma obra sonora? Enquanto neurônios em cultura exibem atividade espontânea e interações complexas, atribuir-lhes autoridade artística requer cuidadosa distinção entre evento biológico e construção estética. A sonificação é, em grande parte, uma operação interpretativa conduzida por técnicos e artistas; os neurônios fornecem matéria-prima, mas não necessariamente a forma final.
A peça também invoca reflexões sobre identidade e continuidade: ao se usar células de um compositor falecido, instala-se uma narrativa de persistência biológica que se confunde com legado artístico. Essa sobreposição pode ser produtiva poeticamente, mas também exige cautela analítica.
Recepção pública e consequências culturais
Projetos que colocam tecido humano e biotecnologia no espaço museal tendem a gerar forte reação pública, variando de admiração científica e curiosidade estética a inquietação ética. A capacidade de ouvir “música” proveniente de células evoca tanto fascínio quanto desconforto, e a comunicação pública do projeto precisa antecipar e esclarecer preocupações. Museus e curadores assumem papel crítico na mediação dessa experiência: não apenas em descrever procedimentos técnicos, mas em situar a obra em debate ético e histórico, promovendo diálogo com o público especializado e leigo.
Além disso, a exposição potencialmente influencia práticas futuras em bioarte e neuroarte, servindo como exemplo de como laboratórios e instituições culturais colaboram. A transparência metodológica e a documentação de processos serão determinantes para o legado científico e artístico do projeto.
Crítica científica e limites da interpretação
Do ponto de vista científico, afirmações sobre “música gerada por células cerebrais” devem ser avaliadas com rigor. É importante distinguir entre atividade elétrica neuronal registrada e a criação autônoma de uma composição musical no sentido humano. Muito do que é percebido como “música” resulta de processos de mapeamento e interpretação algoritmica. Nesse sentido, a peça é tão interessante tecnicamente quanto artisticamente: a ciência fornece dados, a engenharia sonora e a estética convertem esses dados em experiência.
Adicionalmente, questões metodológicas como amplitude do sinal, níveis de ruído, estabilidade da cultura e critérios de seleção de eventos para sonificação influenciam os resultados e devem ser documentadas para que especialistas possam avaliar a robustez do método.
Implicações para pesquisa e prática futura
Projetos como o apresentado em Revivification abrem caminhos para colaborações entre neurocientistas, artistas, engenheiros e filósofos. Possíveis linhas de investigação incluem:
– Desenvolvimento de protocolos éticos-padrão para uso de material biológico em arte pública.
– Estudos sobre como diferentes estratégias de sonificação afetam percepção e interpretação estética.
– Avaliação das respostas do público e dos impactos educativos dessas exposições.
– Exploração de interfaces entre culturas neuronais e sistemas interativos que permitam participação em tempo real do público, sempre sob critérios de biossegurança e ética.
Estas direções destacam a necessidade de frameworks transdisciplinares capazes de integrar exigências científicas, responsabilidade institucional e sensibilidade artística.
Conclusão
A exibição Revivification e a composição póstuma atribuída a Alvin Lucier representam um caso exemplar e desafiador da interseção entre neurociência, biotecnologia e arte. O projeto ilustra o potencial criativo de tecnologias que permitem transformar sinais biológicos em experiências sensoriais, mas também expõe questões complexas sobre autoria, consentimento, dignidade e regulação. A análise cuidadosa das técnicas envolvidas — desde a reprogramação celular até o processamento e sonificação de sinais — e a exigência de transparência ética e metodológica são essenciais para que iniciativas semelhantes avancem de forma responsável.
Ao aproximar o público de processos científicos complexos através de uma experiência artística, Revivification contribui para o debate público sobre o papel da biotecnologia na cultura contemporânea. No entanto, seu impacto positivo dependerá da qualidade do diálogo que museus e instituições científicas estabelecerem com o público e com comunidades de especialistas, garantindo que a inovação venha acompanhada de rigor ético e científico.
Citação direta da reportagem: “Plenty of us would find it difficult to compose a new piece of music under any circumstances, even in the prime of our …” (FELTMAN, apud PARSHALL; FELTMAN; MWANGI; SUGIURA, 2025). Essa passagem ilustra a reflexão sobre as condições necessárias para a criação musical e serve como ponto de partida para questionar a natureza da autoria numa peça que depende de processos biológicos e curadoria técnica.
Referência conforme ABNT:
PARSHALL, Allison; FELTMAN, Rachel; MWANGI, Fonda; SUGIURA, Alex. Neuroscience and Art Collide in a Posthumous ‘Composition’ by Alvin Lucier in Revivification. Scientific American, 26 set. 2025. Disponível em: https://www.scientificamerican.com/podcast/episode/neuroscience-and-art-collide-in-a-posthumous-composition-by-alvin-lucier-in/. Acesso em: 26 set. 2025.
Fonte: Scientific American. Reportagem de Allison Parshall, Rachel Feltman, Fonda Mwangi, Alex Sugiura. Neuroscience and Art Collide in a Posthumous ‘Composition’ by Alvin Lucier in Revivification. 2025-09-26T10:00:00Z. Disponível em: https://www.scientificamerican.com/podcast/episode/neuroscience-and-art-collide-in-a-posthumous-composition-by-alvin-lucier-in/. Acesso em: 2025-09-26T10:00:00Z.






