Introdução: a emergência energética provocada pelo crescimento da IA
O avanço acelerado de sistemas de inteligência artificial (IA) e o consequente crescimento de enormes centros de dados têm criado uma pressão inédita sobre redes elétricas já tensionadas. A “crise elétrica da IA” refere-se precisamente ao risco de descompasso entre a necessidade crescente de eletricidade para treinar e operar modelos de IA e a capacidade de geração e transmissão disponível — um problema que afeta regiões com alta concentração de investimento tecnológico, como a Califórnia (GREENHUT, 2026). Se medidas práticas não forem adotadas, empresas podem enfrentar restrições operacionais, custos elevados e atrasos em inovações que dependem de grande capacidade computacional.
A situação é complexa porque envolve coordenar planejamento energético, políticas ambientais, interesses locais e incentivos para investimentos privados. Como aponta Steven Greenhut, “If California continues down its usual regulated path, it’s unlikely to have the capacity to build power plants needed to drive the industry” (GREENHUT, 2026). Em termos práticos, isso significa que o modelo regulatório vigente pode não ser compatível com o ritmo exigido pelo setor de tecnologia em rápida expansão.
O problema regulatório e a questão da capacidade
Há três dimensões principais que tornam a expansão da capacidade elétrica particularmente difícil no contexto atual: o tempo de construção de usinas e linhas de transmissão, os entraves regulatórios e de licenciamento, e a crescente preferência por soluções de baixo carbono que, embora necessárias, exigem integrações técnicas e investimentos adicionais. Na Califórnia e em outras jurisdições com regimes regulatórios rigorosos, o processo de aprovação de novos empreendimentos muitas vezes é longo, incerto e sujeito a oposição local. Isso reduz a atratividade de investimentos privados e limita a resposta rápida da oferta diante de demandas extraordinárias (GREENHUT, 2026).
Adicionalmente, o desenho tarifário e a estrutura de incentivos nem sempre refletem o valor econômico da energia em horários críticos para centros de dados. Sem sinais de preço corretos e mecanismos de mercado que remunerem a flexibilidade e a capacidade disponível, torna-se difícil alinhar oferta e demanda de forma eficiente.
Impacto nos centros de dados e na indústria de IA
Centros de dados modernos consomem quantidades significativas de energia — tanto para os servidores de alta performance quanto para refrigeração, armazenamento e sistemas auxiliares. Projetos de grande escala para treinar modelos massivos de IA podem demandar disponibilidade energética contínua e previsível. Interrupções ou restrições no fornecimento elevam custos operacionais, levam a migração para outras jurisdições ou pressionam por soluções locais (como geração no próprio local), que podem ser mais caras ou ambientalmente controversas.
Além do risco direto para grandes players, existe uma externalidade sistêmica: se regiões líderes em tecnologia se tornarem menos competitivas por falta de oferta elétrica adequada, isso pode deslocar investimentos, empregos e inovação para locais com políticas energéticas mais favoráveis. A capacidade de manter um ecossistema tecnológico robusto depende, portanto, de uma infraestrutura energética que responda ao ritmo da indústria.
Por que as forças de mercado são uma resposta eficaz
Mercados bem desenhados podem acelerar a alocação de capital e otimizar o uso da infraestrutura existente. Diferentemente de um planejamento estritamente centralizado, ferramentas de mercado — incluindo contratos de compra de energia (PPAs), leilões competitivos, preços dinâmicos e mercados de capacidade — sinalizam onde é economicamente viável construir nova geração e compensam investidores pelo risco e serviço prestado.
A liberalização e flexibilização do mercado de energia permitem:
– Atração de investimentos privados em geração rápida (usinas a gás de ciclo combinado, geradores modulares, armazenamento por baterias) que podem suprir gargalos imediatos.
– Contratos bilaterais e PPAs que garantem receitas estáveis para projetos de energia, reduzindo o custo do capital.
– Preços temporais que incentivam consumo quando a oferta é abundante e desincentivam horários críticos, promovendo eficiência e resposta à demanda.
– Inovação em soluções distribuídas (geração local e microgrids) que aumentam resiliência e reduzem pressão sobre a transmissão.
Em suma, permitir que os mecanismos de mercado funcionem e que investidores privados possam assumir riscos recompensados tende a acelerar a expansão de capacidade e a compatibilizar oferta e demanda em um cenário de rápido crescimento da IA.
Mecanismos de mercado aplicáveis
Para tornar efetivas as soluções orientadas pelo mercado, é necessário implementar uma combinação de instrumentos:
1. Contratos de Compra de Energia de Longo Prazo (PPAs)
PPAs garantem fluxo de caixa para novos projetos. Grandes consumidores de IA podem firmar PPAs com geradores para assegurar fornecimento estável, reduzindo incerteza regulatória e financeira para ambos os lados.
2. Mercados de capacidade e leilões competitivos
Mercados de capacidade remuneram a disponibilidade de geração mesmo quando não está em operação contínua. Leilões competitivos podem selecionar projetos de menor custo e maior rapidez de implantação.
3. Preços de energia em tempo real e sinalização de escassez
Sistemas tarifários que refletem o valor marginal da energia em horários críticos incentivam eficiência e respostas da demanda. Centros de dados, com flexibilidade operacional, podem adaptar cargas não essenciais para períodos de menor preço.
4. Resposta à demanda e contratos de flexibilidade
Programas que remuneram a redução voluntária de consumo em eventos críticos podem ser integrados com operações de IA (por exemplo, escalonamento de treinos ou priorização de tarefas).
5. Facilitação de geração distribuída e microgrids
Permitir que operadores de centros de dados invistam em geração no local (solar, baterias, gás) reduz a dependência da rede e aumenta resiliência, desde que compatíveis com padrões ambientais e de segurança.
6. Simplificação de licenciamento para projetos críticos
Processos regulatórios acelerados e critérios claros para projetos de infraestrutura considerados essenciais podem reduzir atrasos sem sacrificar avaliações ambientais rigorosas.
Integração com energia renovável e armazenamento
A transição para baixos carbonos é uma prioridade legítima e necessária. No entanto, integrar grande capacidade renovável exige investimentos complementares em armazenamento, previsão e reforço das redes. Soluções orientadas ao mercado podem financiar esses componentes: PPAs com renováveis combinados com baterias e contratos de serviços de rede remuneram a entrega de energia firme e flexível.
Modelos híbridos (renovável + armazenamento + geração firme) podem oferecer energia de baixo carbono com garantia de disponibilidade para cargas críticas de IA. Mercados que remuneren serviços auxiliares — como resposta rápida, regulação de frequência e rampas de carga — aumentam a viabilidade econômica dessas soluções.
Casos de melhores práticas e precedentes
Algumas jurisdições e empresas já demonstraram modelos em que forças de mercado e investimentos privados resolveram gargalos de energia. Empresas de tecnologia têm recorrido a PPAs de longa duração para viabilizar parques eólicos e solares, reduzindo custos e garantindo fornecimento. Em paralelo, leilões competitivos e mercados de capacidade em determinadas regiões trouxeram geração adicional mais rapidamente do que processos puramente centralizados.
Esses precedentes sugerem que flexibilizar regras e criar incentivos claros — sem abrir mão de normas ambientais e sociais — pode acelerar a construção de capacidade para atender às necessidades da indústria de IA.
Riscos e salvaguardas a considerar
A promoção de soluções de mercado não é isenta de riscos. Entre os principais desafios estão:
– Externalidades ambientais: permitir geração rápida sem critérios pode levar a impactos locais indesejáveis. É essencial manter padrões ambientais e estudos de impacto.
– Dependência de combustíveis fósseis: soluções imediatas podem aprofundar a dependência de gás natural se não houver compromisso com mitigação e transição.
– Risco de concentração de mercado: políticas devem evitar que poucos atores capturem benefícios de infraestrutura crítica.
– Proteção ao consumidor: desregulação mal desenhada pode resultar em tarifas voláteis que penalizam consumidores residenciais.
Para mitigar esses riscos, recomenda-se combinar mecanismos de mercado com regulamentações inteligentes: exigência de avaliações ambientais, metas de descarbonização escalonadas, salvaguardas antimonopólio e mecanismos de proteção aos consumidores.
Recomendações de política pública
Com base na análise, proponho as seguintes recomendações práticas para formuladores de políticas que desejam conciliar segurança energética, investimento privado e objetivos ambientais:
1. Criar procedimentos acelerados de licenciamento para projetos críticos de geração e transmissão, mantendo avaliação ambiental e participação pública.
2. Incentivar PPAs de longo prazo e contratos híbridos que combinem renováveis com armazenamento e/ou geração firme.
3. Implementar ou fortalecer mercados de capacidade e remunerar serviços auxiliares, para valorizar disponibilidade e flexibilidade.
4. Estabelecer sinalização de preço clara (mercados em tempo real e tarifas dinâmicas) para alinhar consumo e oferta.
5. Apoiar a geração distribuída e microgrids em campus de tecnologia, com padrões de segurança e ambientais.
6. Oferecer incentivos fiscais temporários e garantias de financiamento para projetos de construção rápida de capacidade necessária.
7. Promover a transparência regulatória e reduzir incertezas jurídicas que retardam investimentos privados.
8. Combinar metas de descarbonização com prazos realistas e mecanismos de transição que evitem choques de oferta.
Essas medidas buscam equilibrar a necessidade de uma resposta rápida com a proteção ambiental e a promoção de um mercado competitivo.
Discussão sobre equidade e sustentabilidade de longo prazo
As soluções orientadas ao mercado precisam ser acompanhadas de uma visão de longo prazo sobre sustentabilidade e justiça social. Políticas energéticas eficientes devem considerar impacto nos consumidores residenciais, evitar deslocamento de custos e garantir que benefícios do desenvolvimento tecnológico sejam amplamente distribuídos. Ao mesmo tempo, estabelecer metas de descarbonização e financiar investigação em tecnologias limpas pode conciliar crescimento econômico e responsabilidade ambiental.
Adicionalmente, é necessário pensar em resiliência climática: redes mais robustas e flexíveis, combinadas com diversificação da matriz, reduzem vulnerabilidades a eventos extremos, protegendo tanto a população quanto a indústria de IA.
Conclusão: agir com pragmatismo regulatório e abertura ao mercado
A crise elétrica da IA é real e exige ação coordenada. Continuar unicamente no caminho de regulação pesada e processos lentos coloca em risco a capacidade de regiões como a Califórnia de acompanhar demandas tecnológicas emergentes (GREENHUT, 2026). Ao mesmo tempo, abrir espaço para forças de mercado não significa abdicar de responsabilidade pública: é possível e necessário combinar mecanismos de mercado com exigências ambientais, proteção ao consumidor e mecanismos de governança que previnam abuso de mercado.
Permitir investimentos privados, implementar PPAs, habilitar mercados de capacidade e preços dinâmicos, e acelerar licenças para projetos críticos são medidas práticas que podem ampliar rapidamente a oferta elétrica necessária para sustentar centros de dados e a indústria de IA. Com um desenho adequado, essas medidas ampliam a capacidade de resposta, atraem capital e garantem que a transição para uma economia digital competitiva seja feita de forma sustentável e resiliente.
Referências e citações
No corpo deste texto foram utilizadas referências e citações ao artigo de Steven Greenhut, que discute como o modelo regulatório da Califórnia pode comprometer a capacidade de construir usinas necessárias ao setor de IA. A citação direta utilizada e as alegações presentes neste texto seguem as normas de citação da ABNT, com referência completa abaixo.
Referência ABNT:
GREENHUT, Steven. Fix the AI Electricity ‘Crisis’ by Unleashing Market Forces. Reason, 15 jan. 2026. Disponível em: https://reason.com/2026/01/16/fix-the-ai-electricity-crisis-by-unleashing-market-forces/. Acesso em: 15 jan. 2026.
Fonte: Reason. Reportagem de Steven Greenhut. Fix the AI Electricity ‘Crisis’ by Unleashing Market Forces. 2026-01-15T22:21:29Z. Disponível em: https://reason.com/2026/01/16/fix-the-ai-electricity-crisis-by-unleashing-market-forces/. Acesso em: 2026-01-15T22:21:29Z.





