Neel Kashkari (Fed): por que a IA supera criptomoedas e por que stablecoins viraram alvo de críticas regulatórias

Esta análise detalhada examina a declaração do presidente do Federal Reserve de Minneapolis, Neel Kashkari, que considerou cripto “utterly useless” frente à inteligência artificial e qualificou argumentos pró-stablecoins como “a buzzword salad” (QUARMBY, 2026). O texto explora implicações para regulação, riscos sistêmicos, perspectivas de políticas públicas e estratégias para profissionais do mercado, com foco em criptomoedas, stablecoins, inteligência artificial, supervisão do Fed e propostas de CBDC.

Resumo executivo

No pronunciamento repercutido pela imprensa especializada, Neel Kashkari, presidente do Federal Reserve Bank de Minneapolis, afirmou que criptomoedas são “utterly useless” quando comparadas ao potencial da inteligência artificial e rebateu argumentos favoráveis às stablecoins, descrevendo-os como “a buzzword salad” (QUARMBY, 2026). Essa declaração resume uma posição crítica por parte de um importante dirigente do sistema do Federal Reserve e reacende o debate sobre o papel das criptoativos na economia, a necessidade de regulação robusta e as prioridades de investimento tecnológico nas instituições financeiras e regulatórias. Este artigo oferece um exame aprofundado das declarações, do contexto macroeconômico e das implicações práticas para reguladores, gestores de risco e investidores institucionais.

Contexto das declarações e fonte

As observações de Kashkari foram veiculadas em matéria do Cointelegraph (QUARMBY, 2026) e repetem preocupações mais amplas sobre a utilidade econômica das criptomoedas e os riscos associados às stablecoins. A referência original informa que, para Kashkari, a inteligência artificial representa um avanço com aplicações concretas e utilidade superior às que ele atribui aos criptoativos. Ao mesmo tempo, a crítica às stablecoins destaca a percepção de que parte do discurso público favorável a esses instrumentos carece de fundamentação técnica e regulatória (QUARMBY, 2026).

Entendendo as afirmações: “utterly useless” e “a buzzword salad”

As expressões citadas — “utterly useless” (totalmente inútil) para criptomoedas e “a buzzword salad” (uma salada de palavras de efeito) para argumentos pró-stablecoin — são incisivas e carregam dois pontos centrais:

– Avaliação de utilidade econômica: ao qualificar criptomoedas como “utterly useless”, Kashkari questiona a capacidade dos criptoativos de produzir benefícios econômicos tangíveis e duradouros que justifiquem os riscos e custos associados. Essa avaliação toca em temas como volatilidade, usos reais para pagamentos, custos de liquidação e fragmentação de mercados.

– Ceticismo sobre narrativas de valor: ao rotular argumentos pró-stablecoin como “buzzword salad”, a crítica aponta para um uso retórico de termos técnicos e promessas de inovação que nem sempre se traduzem em engenharia financeira robusta, governança prudente ou mitigações de riscos sistêmicos.

Esses termos, embora coloquiais, indicam uma posição regulatória que favorece evidência empírica, avaliações custo-benefício e cautela frente a narrativas de mercado.

Criptomoedas: avaliação crítica da utilidade e dos riscos

Avaliar se criptomoedas são “úteis” exige distinguir entre categorias de criptoativos e seus casos de uso. Existem tokens com propostas distintas — moedas digitais descentralizadas (ex.: Bitcoin), plataformas de contratos inteligentes (ex.: Ethereum), tokens de utilidade e ativos sintéticos. Ainda assim, as críticas vistas na declaração de Kashkari refletem problemas recorrentes:

– Volatilidade e store of value: muitas criptomoedas apresentam flutuações extremas de preço, limitando sua função como meio de troca ou reserva estável de valor para agentes econômicos e empresas.

– Escalabilidade e custos de transação: redes públicas, dependendo do mecanismo de consenso, enfrentam limitações de throughput e custos que reduzem eficácia em pagamentos de rotina.

– Governança e responsabilidade: a natureza descentralizada pode dificultar mecanismos tradicionais de supervisão, responsabilização e remediação, especialmente em casos de fraude, insolvência de plataformas ou falhas técnicas.

– Risco sistêmico e integrações financeiras: a crescente interconexão entre instituições financeiras e ecossistemas cripto (exchanges, market makers, fundos) cria canais de contágio que podem transferir choques aos mercados tradicionais.

– Compliance e AML/CFT: desafios para prevenção de lavagem de dinheiro, financiamento do terrorismo e evasão regulatória aumentam o custo de supervisão e geram incertezas jurídicas.

Esses fatores sustentam a avaliação crítica de que, em muitos casos, os benefícios práticos das criptomoedas são insuficientes para compensar seus riscos do ponto de vista macroprudencial.

Stablecoins: natureza, promessas e críticas

Stablecoins se propõem a oferecer estabilidade de preço ancorada a ativos subjacentes, como moedas fiduciárias, commodities ou algoritmos. Prometem usabilidade para pagamentos digitais, liquidez para mercados cripto e inovação em infraestrutura de liquidação. Contudo, os pontos de crítica incluem:

– Lastro e transparência: reservas insuficientes, falta de auditoria independente e opacidade das garantias minam a confiança. A ausência de padrões uniformes sobre reservas cria risco de insolvência das emissores.

– Governança e custódia: concentração de poder em emissores privados ou plataformas centralizadas gera risco de contraparte e conflitos de interesse.

– Risco de corrida: em situações de estresse, resgates massivos podem provocar liquidações aceleradas de ativos relacionados e transmissões de choque ao sistema financeiro.

– Efeitos sobre política monetária: a difusão de stablecoins privados de grande escala pode complicar a transmissão da política monetária e a eficácia do controle de liquidez.

– Regulação insuficiente: lacunas regulatórias em áreas transnacionais tornam difícil coordenação entre autoridades e criam arbitragem regulatória.

A crítica de Kashkari ao que chama de “buzzword salad” sugere que muitos argumentos públicos pró-stablecoins se apoiam mais em retórica técnica do que em demonstrações sólidas de governança, proteção ao consumidor e resiliência operacional (QUARMBY, 2026).

Inteligência artificial: utilidade prática para o setor financeiro

Ao destacar a inteligência artificial como superior em termos de utilidade prática, a declaração de Kashkari aponta para aplicações concretas da IA que trazem valor mensurável:

– Supervisão e detecção de risco: modelos de machine learning podem identificar padrões de fraude, risco de crédito e anomalias em tempo real, melhorando a eficiência da supervisão.

– Otimização de processos: automação inteligente reduz custos operacionais, acelera reconciliamentos e melhora a qualidade do controle interno.

– Modelagem macroprudencial: IA permite o tratamento de grandes volumes de dados alternativos para monitoramento de riscos sistêmicos e simulações de cenário.

– Inovação em produtos financeiros: personalização de serviços, precificação dinâmica e gestão de portfólios beneficiam-se de técnicas avançadas de IA.

A ênfase de Kashkari na IA reflete a percepção de que investimentos em capacidades analíticas e de supervisão tecnológica terão impacto mais direto e mensurável na estabilidade financeira e no crescimento econômico do que muitos dos casos de uso propostos para criptoativos (QUARMBY, 2026).

Implicações regulatórias e políticas públicas

As afirmações do presidente do Minneapolis Fed implicam uma agenda regulatória com prioridades claras:

– Fortalecimento da supervisão de stablecoins: definir padrões de lastro, auditoria e requisitos de liquidez para emissores; criar regimes de resolução e proteção ao consumidor.

– Integração entre política monetária e ativos digitais: avaliar efeitos de cripto e stablecoins na transmissão de política e, se necessário, considerar marcos para mitigar impactos (incluindo discussões sobre CBDC).

– Foco em tecnologia para supervisão: investimento em ferramentas de IA para fiscalização, monitoramento de mercado e detecção de riscos em tempo real.

– Coordenação internacional: promover padrões globais para evitar arbitragem regulatória e alinhar regras entre jurisdições relevantes.

– Educação e divulgação: ampliar esforços para informar investidores e o público sobre riscos e limites dos criptoativos.

Essas prioridades traduzem-se em ações práticas que podem ser adotadas por bancos centrais, autoridades prudenciais e legisladores para conciliar inovação e estabilidade.

Impacto no mercado e nas instituições financeiras

A retórica forte de uma autoridade do Fed tem efeitos práticos:

– Reavaliação de exposições: instituições que mantêm posições ou oferecem serviços relacionados a cripto poderão revisar provisões de capital, políticas de risco e limites de exposição.

– Pressão sobre a oferta de stablecoins: reguladores mais rigorosos podem elevar custos de emissão e operação, reduzindo atratividade ou levando emissores a buscar charters bancários ou estruturas regulatórias equivalentes.

– Oportunidades para provedores de tecnologia: maior demanda por soluções de conformidade, auditoria on-chain e sistemas de detecção baseados em IA.

– Mudança de narrativa entre investidores institucionais: a preferência por soluções tecnológicas aplicáveis (por exemplo, IA) pode redirecionar investimentos de risco.

Respostas do setor cripto e contrapontos

Representantes e defensores do ecossistema cripto costumam apresentar argumentos em sentido contrário, destacando inovação financeira, inclusão e eficiência potencial em pagamentos transfronteiriços. Principais contrapontos incluem:

– Casos de uso legítimos: remessas, serviços financeiros para não-bancarizados e aplicações de contratos inteligentes que não dependem de instituições intermediatárias.

– Evolução tecnológica: melhorias em escalabilidade, interoperabilidade e modelos de governança que buscam mitigar críticas.

– Argumento de descentralização: defesa de modelos que reduzem dependência de instituições centralizadas.

No entanto, a eficácia desses argumentos depende de evidências empíricas e maturidade institucional para endereçar os riscos identificados.

Recomendações práticas para formuladores de política e profissionais

Para tradutores de políticas e gestores, recomendações operacionais incluem:

– Desenvolver standards mínimos para stablecoins, incluindo auditorias regulares e requisitos de liquidez.

– Promover pilotos regulamentados (sandboxes) que permitam testar inovações sob supervisão, com métricas claras de avaliação.

– Investir em capacidades internas de IA para supervisionar mercados, com governança robusta sobre modelos e mitigação de vieses.

– Estabelecer planos de contingência para risco de corrida em grandes emissores de stablecoins, incluindo roteiros de resolução.

– Reforçar requisitos de divulgação e proteção ao consumidor para plataformas de criptoativos.

– Buscar coordenação multilateral para uniformizar tratamentos regulatórios e reduzir arbitragem.

Essas ações equilibram a proteção ao sistema financeiro com a possibilidade de aproveitar inovações que comprovem utilidade real.

Aspectos técnicos e jurídicos a serem aprofundados

Questões que demandam análise técnica e legal detalhada:

– Definição jurídica de stablecoin: se são consideradas depósitos, instrumentos financeiros ou contratos privados terá impacto regulatório.

– Tratamento prudencial de reservas: regras para composição de ativos, liquidez e marcação a mercado.

– Privacidade e proteção de dados em soluções baseadas em IA: conformidade com leis de proteção de dados ao usar dados sensíveis para modelagem.

– Interoperabilidade entre infraestruturas de pagamento: requisitos técnicos para integração entre sistemas bancários e redes digitais.

A resolução dessas questões exigirá cooperação entre áreas técnicas, jurídicas e de política monetária.

Perspectivas futuras: CBDC, IA e a coexistência com criptoativos

A posição de Kashkari pode ser lida como um estímulo à priorização de iniciativas com impacto macroeconômico claro, como a avaliação de moedas digitais de banco central (CBDC) e o fortalecimento de capacidades de supervisão com IA. Possíveis cenários futuros:

– CBDC implementada como alternativa a stablecoins privados, reduzindo demanda por emissores privados de grande escala.

– Uso ampliado de IA por reguladores, melhorando detecção de risco e interoperabilidade entre supervisões.

– Criptoativos deixando de ser um nicho especulativo e migrando para aplicações mais específicas e reguladas, ou mantendo participação limitada ao ecossistema de ativos digitais.

A combinação entre regulação clara, tecnologia de supervisão e inovação responsável definirá se e como criptomoedas e stablecoins coexistirão com o sistema financeiro tradicional.

Conclusão

As declarações de Neel Kashkari (QUARMBY, 2026) servem como síntese de um ceticismo regulatório que exige evidências de utilidade e robustez antes de admitir amplo protagonismo de criptoativos na economia. A ênfase na inteligência artificial sinaliza que autoridades monetárias valorizam inovações com impacto direto na eficiência e resiliência do sistema financeiro. Para o setor, a lição é dupla: provar utilidade econômica real e aceitar padrões regulatórios que mitiguem riscos sistêmicos. Para reguladores, a missão será calibrar medidas que protejam consumidores e a estabilidade financeira, sem sufocar inovações que possam gerar benefícios tangíveis.

Referências (ABNT)

QUARMBY, Brian. Fed’s Kashkari lashes crypto and stablecoins, praises AI. Cointelegraph, 20 fev. 2026. Disponível em: https://cointelegraph.com/news/fed-neel-kashkari-lashes-crypto-and-stablecoins. Acesso em: 20 fev. 2026.


Fonte: Cointelegraph. Reportagem de Cointelegraph by Brian Quarmby. Fed’s Kashkari lashes crypto and stablecoins, praises AI. 2026-02-20T04:13:29Z. Disponível em: https://cointelegraph.com/news/fed-neel-kashkari-lashes-crypto-and-stablecoins. Acesso em: 2026-02-20T04:13:29Z.

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