Introdução: a aparente ironia da IA remodelando seus criadores
A crescente adoção de inteligência artificial (IA) em ambientes corporativos e de desenvolvimento tem produzido uma mudança estrutural nas ocupações que a concebem e mantêm. Interessantemente, as profissões responsáveis pela criação de modelos, sistemas e ferramentas de IA — em especial desenvolvedores de software e profissionais de tecnologias da informação — figuram entre as mais expostas às mudanças provocadas pela própria tecnologia (MCKENDRICK, 2025). Segundo levantamentos recentes, quase metade das habilidades típicas em determinadas funções já estão sujeitas a transformação direta por IA, evidenciando que o efeito da automação não se restringe a tarefas operacionais, mas alcança competência técnica e sintetização de processos.
Este texto oferece uma análise aprofundada dos impactos da IA sobre as ocupações de TI, identifica as principais habilidades em risco e emergentes, e aponta recomendações práticas para gestores, profissionais e instituições educacionais que desejam responder com ação estratégica e responsável à transformação em curso.
Contexto e evidências: por que desenvolvedores de software estão tão expostos
A exposição dos profissionais de TI e, particularmente, do desenvolvimento de software à IA decorre de dois fatores convergentes. Primeiro, a própria natureza repetitiva e padrão de muitas tarefas de codificação e testes as torna facilmente automáveis. Segundo, ferramentas baseadas em modelos de linguagem e sistemas de geração de código têm evoluído rapidamente, sendo capazes de executar tarefas que outrora exigiam intervenção humana direta.
De acordo com a reportagem de Joe McKendrick, publicada na Forbes, aproximadamente 46% das habilidades típicas em certas ocupações estão mais expostas à automação por IA (MCKENDRICK, 2025). Essa cifra, embora dependente da metodologia e do recorte ocupacional, sinaliza uma alteração substancial na demanda por competências técnicas. Tarefas como escrita de trechos de código padrão, refatoração, criação de testes unitários e documentação automática são exemplos de atividades que já sofrem influência direta de ferramentas de IA.
Quais tarefas da engenharia de software a IA já substitui ou complementa?
A distinção entre substituição e complementação é crucial para entender o impacto real. A IA tem se mostrado especialmente eficaz em:
– Geração de código a partir de especificações simples: ferramentas de programação assistida podem produzir esboços de funções, classes e APIs a partir de descrições em linguagem natural.
– Automação de testes e validação: frameworks inteligentes geram casos de teste, analisam cobertura e sugerem correções.
– Revisão de código e detecção de vulnerabilidades: sistemas de análise estática com aprendizado de máquina identificam padrões de risco e más práticas.
– Refatoração e otimização: sugestões automatizadas para melhoria de performance e legibilidade.
– Documentação e comentários: produção automática de documentação técnica e guias de uso.
Em muitos desses casos, a IA atua como amplificadora de produtividade, permitindo que profissionais foquem em problemas de maior complexidade e criatividade. No entanto, quando tarefas padronizadas se tornam majoritariamente automatizadas, a quantidade de trabalho associada a esses passos diminui, e o perfil exigido do profissional muda (MCKENDRICK, 2025).
Competências em declínio e competências emergentes
A transformação do trabalho impõe uma revisão das matrizes de competências. Entre as habilidades que tendem a reduzir de demanda estão:
– Codificação rotineira e padronizada sem componente analítico;
– Manutenção de scripts simples repetitivos;
– Produção de documentação puramente descritiva sem valor analítico.
Em contrapartida, emergem com força as seguintes competências:
– Arquitetura de sistemas e design de soluções complexas;
– Integração de sistemas e orquestração entre ferramentas de IA e sistemas legados;
– Habilidades de validação, auditoria e interpretação de resultados de modelos de IA;
– Governança de dados, segurança e conformidade regulatória;
– Pensamento crítico, resolução de problemas ambíguos e comunicação interfuncional.
A requalificação profissional deve, portanto, priorizar não apenas habilidades técnicas avançadas (por exemplo, engenharia de dados e MLOps), mas também competências transversais: liderança técnica, alfabetização em ética da IA e capacidade de operar em ambientes híbridos humano-máquina.
Impacto organizacional: processos, equipes e modelos de gestão
Organizações que adotam IA em atividades de desenvolvimento observam mudanças em processos e estruturas de equipe. Entre os impactos práticos:
– Redefinição de papéis: surgem funções híbridas, como engenheiro de confiabilidade de modelo, auditor de desempenho de IA e gerente de integração de ferramentas.
– Alterações em métricas de produtividade: indicadores tradicionais (linhas de código, número de commits) tornam-se menos relevantes; métricas de valor entregue, qualidade arquitetural e taxa de adoção de recursos passam a ser mais indicativas.
– Necessidade de novos fluxos de trabalho: pipelines que incorporam etapas de validação, teste de vieses, revisão ética e monitoramento contínuo tornam-se padrões.
– Aceleração do ciclo de desenvolvimento: com tarefas automatizadas, o tempo entre especificação e entrega é reduzido, exigindo maior capacidade de governança e controle de mudanças.
Essas transformações exigem planejamento estratégico e investimento em governança corporativa da IA, com políticas claras para uso de modelos, responsabilidades definidas e programas de desenvolvimento de competência contínua.
Riscos e desafios: vieses, qualidade e dependência tecnológica
A incorporação ampla de IA traz benefícios claros de produtividade, mas também riscos relevantes:
– Vieses embutidos em modelos: sem auditoria crítica, sistemas de IA podem perpetuar erros e discriminações.
– Problemas de confiabilidade: gerações automáticas de código podem introduzir vulnerabilidades e comportamentos inesperados se não devidamente testadas.
– Dependência excessiva de fornecedores: ecossistemas fechados podem criar lock-in e risco estratégico.
– Erosão de conhecimento institucional: se tarefas críticas forem externalizadas à IA sem transferência de conhecimento, a organização pode perder capacidade de inspecionar e corrigir sistemas.
Mitigar esses riscos requer políticas robustas de governança de IA, testes contínuos, validação independente e manutenção de competências internas capazes de questionar e reparar as soluções automatizadas (MCKENDRICK, 2025).
Implicações para educação e formação profissional
Instituições de ensino e programas corporativos precisam ajustar currículos para alinhar formação às demandas emergentes. Recomendações práticas incluem:
– Integrar disciplinas de ética da tecnologia, governança de dados e práticas de verificação de modelos.
– Priorizar aprendizado baseado em projetos complexos que envolvam integração de ferramentas e resolução de problemas reais.
– Oferecer micro-credenciais e cursos modulares para requalificação ágil de profissionais em atividade.
– Fomentar alianças entre empresas e instituições educacionais para estágios, projetos pilotos e atualização constante de conteúdo.
A formação contínua torna-se imperativa: profissionais de TI devem transitar de executores de tarefas técnicas para designers, avaliadores e reguladores de sistemas inteligentes.
Estratégias para profissionais: como navegar na transição
Para profissionais de desenvolvimento e TI, a transição para um mercado de trabalho influenciado pela IA pode ser gerida por meio de ações concretas:
– Atualização contínua: estudar arquitetura de sistemas, MLOps, engenharia de dados e segurança da informação.
– Aprender a trabalhar com ferramentas de IA: dominar plataformas de geração de código, integração de APIs e workflow automatizados.
– Desenvolver habilidades de auditoria e interpretação de modelos: ser capaz de explicar decisões de IA e validar sua qualidade.
– Fortalecer competências interpessoais: comunicação, liderança e gestão de stakeholders são diferenciais.
– Buscar projetos que envolvam solução de problemas reais e complexos, onde a criatividade humana é insubstituível.
Aqueles que se adaptarem e aprenderem a co-pilotar sistemas baseados em IA estarão melhor posicionados no mercado.
Políticas públicas e governança setorial
O papel do setor público é decisivo para equilibrar inovação e proteção do trabalho. Políticas recomendadas:
– Incentivos para requalificação e programas de transição de carreira;
– Regulamentação que exija transparência e auditoria de modelos de IA em aplicações críticas;
– Financiamento para pesquisa em IA ética e explicável;
– Diretrizes para uso responsável em setores sensíveis, como saúde, finanças e segurança.
Governos e reguladores devem colaborar com a indústria para criar um ambiente que permita inovação com responsabilidade, minimizando impactos sociais negativos.
Casos de uso e lições práticas
Empresas pioneiras oferecem lições aplicáveis. Exemplos de boas práticas incluem:
– Companhias que instituíram equipes de “IA seguro e responsável” para validar modelos antes da produção.
– Organizações que promoveram programas de requalificação interna, realocando desenvolvedores para funções de integração e auditoria de IA.
– Projetos que combinaram IA para tarefas de baixa complexidade com supervisão humana em etapas críticas, garantindo qualidade e conformidade.
Esses casos demonstram que a adoção ponderada de IA pode aumentar valor sem descartar o capital humano, desde que existam planos claros para transição de funções.
Análise prospectiva: cenários para os próximos cinco anos
Três cenários prováveis emergem:
– Cenário otimista: a IA complementa o trabalho humano, ampliando produtividade e criando novas profissões técnicas e de governança. Requalificação massiva é bem-sucedida e a economia de TI cresce.
– Cenário de transição desigual: ganhos de produtividade concentram-se em empresas com capacidade de investimento; trabalhadores em segmentos menos favorecidos enfrentam desalocação temporária e pressionam políticas públicas.
– Cenário disruptivo: automação acelerada sem políticas de requalificação generalizada provoca desemprego estrutural em certas funções de TI e aumenta desigualdades setoriais.
A probabilidade de cada cenário depende de decisões estratégicas de empresas, governos e instituições formadoras nos próximos anos. A trajetória mais desejável combina inovação com investimento em capital humano.
Recomendações práticas para líderes de TI e RH
Executivos e gestores devem considerar ações concretas:
– Mapear habilidades internas e identificar tarefas automatizáveis versus estratégicas.
– Investir em programas de requalificação e rotatividade interna para preservar conhecimento institucional.
– Implementar governança de IA com métricas de responsabilidade, auditabilidade e monitoramento contínuo.
– Revisar métricas de desempenho para focar em valor entregue e impacto do produto, não apenas output técnico.
– Estabelecer parcerias com provedores educacionais e startups para acelerar transferência tecnológica.
Essas medidas ajudam a equilibrar eficiência e sustentabilidade de longo prazo no capital humano.
Conclusão: da substituição à metamorfose profissional
A afirmação de que a IA é mais provável de remodelar os empregos de seus criadores contém uma advertência e uma oportunidade simultâneas. A advertência refere-se ao risco real de obsolescência de tarefas padronizadas; a oportunidade reside na possibilidade de elevar o papel dos profissionais de TI para níveis de maior responsabilidade estratégica, ética e arquitetural (MCKENDRICK, 2025).
A resposta eficaz exige uma combinação de requalificação contínua, governança robusta, métricas alinhadas ao valor e políticas públicas que apoiem a transição. Organizações que agirem de forma proativa — investindo em competências emergentes, adotando práticas de auditoria e garantindo supervisão humana em pontos críticos — serão as que melhor capitalizarão os benefícios da IA, preservando ao mesmo tempo emprego e qualidade técnica.
Referências e citações em conformidade com normas ABNT
No corpo do texto foram usadas referências à reportagem de Joe McKendrick que aponta a exposição significativa de habilidades à automação por IA (MCKENDRICK, 2025).
Fonte: Forbes. Reportagem de Joe McKendrick, Senior Contributor, Joe McKendrick, Senior Contributor https://www.forbes.com/sites/joemckendrick/. AI Is Most Likely To Reshape The Jobs Of Its Creators. 2025-09-27T03:19:17Z. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/joemckendrick/2025/09/26/ai-is-most-likely-to-reshape-the-jobs-of-its-creators/. Acesso em: 2025-09-27T03:19:17Z.






