Introdução: o debate permanente sobre a educação em arquitetura
A educação em arquitetura é alvo constante de críticas públicas e internas. Questionamentos sobre sua relevância, alinhamento com o mercado, equilíbrio entre teoria e prática e adequação às rápidas transformações tecnológicas aparecem com frequência nos meios especializados e na imprensa (HOLLAND, 2026). No artigo de Charles Holland publicado na Dezeen, defende-se que, apesar das críticas, a educação em arquitetura ainda cumpre sua função mais essencial: o ensino de projeto (HOLLAND, 2026). Este texto expande essa reflexão, oferecendo uma análise crítica e proposições práticas para reforçar e atualizar o ensino de projeto, sem perder de vista competências técnicas, éticas e sociais necessárias à formação arquitetônica contemporânea.
O papel do ensino de projeto na formação arquitetônica
O ensino de projeto — a capacidade de conceber, desenvolver e comunicar propostas espaciais — é muitas vezes apontado como o núcleo da educação em arquitetura. É por meio do estúdio que se articulam conhecimento técnico, sensibilidade estética, pensamento crítico e resolução de problemas complexos. Holland destaca que, mesmo diante de críticas sobre conteúdos e métodos, as escolas continuam a ser eficazes na transmissão dessa habilidade central (HOLLAND, 2026). Essa eficácia não é trivial: projetar exige integrar múltiplos saberes, desde a tectônica até a sociologia urbana, passando por legislação e sustentabilidade.
Ao reconhecer o papel central do ensino de projeto, torna-se possível avaliar as críticas de forma mais precisa: são falhas relativas ao modo como o estúdio e as disciplinas complementares interagem, à adequação das metodologias avaliativas e ao suporte institucional para inovação pedagógica, mais do que uma desqualificação total do ensino de projeto em si.
Principais críticas e suas limitações
Críticas frequentes à educação em arquitetura incluem: excesso de ênfase em estilo e retórica projetual em detrimento de competências técnicas; distância entre currículo e mercado profissional; reprodução de práticas autorreferenciais no estúdio; pouca atenção à diversidade socioambiental; e avaliações que privilegiam o espetáculo do projeto. Muitas dessas críticas têm fundamento, mas nem sempre reconhecem avanços recentes e variações significativas entre instituições (HOLLAND, 2026).
É essencial diferenciar críticas que apontam problemas reais e recorrentes — como deficiências em ensino de construção, conforto ambiental e responsabilidade social — de generalizações que desconhecem a pluralidade dos programas de arquitetura. Uma abordagem equilibrada identifica lacunas concretas e propõe intervenções pedagógicas, em vez de condenar o modelo do estúdio como ultrapassado.
Equilíbrio entre teoria, técnica e prática
A formação arquitetônica exige um equilíbrio delicado entre teoria, técnica e prática projetual. A teoria alimenta o pensamento crítico e a capacidade de problematizar contextos; a técnica garante que as propostas sejam exequíveis; e a prática projetual integra ambos em soluções espaciais. Problemas ocorrem quando uma dessas dimensões se sobredetermina em detrimento das demais.
Reforçar componentes técnicos não significa reduzir a liberdade projetual, mas ampliar a responsabilidade do projeto. Inserir módulos práticos — construção, desempenho energético, gestão de obras — e projetos integradores com profissionais do setor facilita a transição entre universidade e mercado. Ao mesmo tempo, é imprescindível manter espaços de experimentação e pesquisa projetual que permitam inovação conceitual e crítica, preservando o papel formativo do estúdio como laboratório criativo.
O estúdio como espaço pedagógico e cultural
O estúdio é um ambiente peculiar: é pedagógico, social e competitivo. A cultura do estúdio influencia profundamente a aprendizagem: práticas de crítica (jurys), tutoria, trabalho em grupo e revisão constante moldam a formação ética e profissional do estudante. Holland lembra que, apesar das críticas, as práticas de estúdio continuam a formar competências fundamentais de projeto (HOLLAND, 2026).
Entretanto, algumas práticas de estúdio precisam ser revistas. A crítica excessiva que desqualifica o estudante sem orientar a aprendizagem, a competição destrutiva entre pares e avaliações que privilegiam formas impactantes em detrimento de soluções contextualizadas são pontos que exigem atenção. Metodologias mais reflexivas, feedback formativo, tutoria individualizada e avaliações que considerem processo e produto podem fortalecer o estúdio como ambiente de aprendizagem colaborativa e crítica.
Avaliando para aprender: da nota ao desenvolvimento
A avaliação no ensino de arquitetura frequentemente se concentra no produto final, medido por jurys que privilegiam apresentação. Esse formato tem vantagens — desenvolve capacidade de síntese e comunicação —, mas também limita a valorização de processos, testes, iterações e aprendizagens técnicas. Mudar a cultura avaliativa implica incorporar instrumentos que registrem o progresso: portfólios reflexivos, relatórios técnicos, avaliações por pares, avaliações formativas e indicadores de desempenho social e ambiental dos projetos.
A transição para avaliações mais abrangentes requer treinamento de docentes, critérios claros e tempo institucional para feedback. Além disso, a adoção de rubricas e critérios públicos promove transparência e possibilita ao estudante compreender claramente expectativas e objetivos de aprendizagem.
Competências transversais e a formação profissional
Além das competências projetuais e técnicas, as escolas devem preparar arquitetos para liderar processos complexos: trabalho interdisciplinar, gestão de projetos, comunicação com stakeholders, e compreensão de políticas públicas e mercado. Essas competências transversais são cada vez mais requeridas pelo exercício profissional contemporâneo.
Integrar disciplinas e experiências que desenvolvam negociação, liderança e análise econômica, sem sacrificar o tempo do estúdio, é um desafio curricular. Soluções incluem projetos integrados com outras faculdades (engenharia, urbanismo, ciências sociais), estágios estruturados, clínicas profissionais e parcerias com prefeituras e organizações civis. Tais iniciativas aproximam a formação universitária das demandas reais, sem transformar a escola em mero centro de treinamento técnico.
Digitalização, ferramentas e a prática do projeto
A digitalização e novas tecnologias mudaram profundamente práticas arquitetônicas. Ferramentas de modelagem, simulação de desempenho, fabricação digital e realidade aumentada ampliam possibilidades projetuais e exigem novas competências. É legítima a preocupação sobre como incorporar tecnologias ao currículo sem reduzir a capacidade crítica do projeto.
A integração de ferramentas digitais deve ser orientada por propósitos pedagógicos: simulações de desempenho para validar decisões de projeto, modelagem paramétrica para explorar variantes e fabricação digital para testar soluções construtivas. Além disso, a alfabetização digital deve contemplar questões éticas e de impacto ambiental associadas às tecnologias. Assim, a educação em arquitetura amplia seu alcance técnico sem perder de vista a sua função formadora do pensamento projetual.
Sustentabilidade, justiça social e contexto local
Críticas também apontam que a educação em arquitetura, em algumas escolas, não abraça suficientemente os desafios de sustentabilidade e justiça social. A mudança climática, a crise dos recursos e as desigualdades urbanas exigem que o currículo incorpore robustamente esses temas. Projetos que ignoram contexto ambiental e socioeconômico são cada vez menos aceitáveis.
As escolas devem promover projetos que considerem assessoria ambiental, materiais de baixo impacto, eficiência energética, e soluções de habitação acessível. Além disso, incentivar projetos que partam da comunidade — co-design, pesquisa-ação e oficinas locais — aproxima a formação universitária das realidades socioespaciais e forma arquitetos mais responsáveis socialmente.
Internacionalização x relevância local
A internacionalização da educação em arquitetura traz benefícios — intercâmbio de ideias, exposição a contextos diversos e parcerias acadêmicas —, mas pode, em alguns casos, deslocar o foco da formação para modelos estrangeiros pouco adequados à realidade local. O desafio curricular é combinar repertório internacional com sensibilidade crítica ao contexto local, às normas e às práticas profissionais de cada país.
Programas que incentivam mobilidade acadêmica e cooperação internacional devem equilibrar experiências no exterior com projetos que investiguem problemas locais. Assim, a internacionalização enriquece sem homogeneizar a formação arquitetônica.
Governança, infraestrutura e financiamento da educação
Questões estruturais — financiamento das instituições, carga docente, infraestrutura de oficinas e laboratórios — impactam diretamente a qualidade do ensino. Investir em oficinas de construção, estúdios bem equipados e bibliotecas especializadas é condição necessária para manter a excelência do ensino de projeto. Formação continuada de docentes em metodologias ativas e tecnologias emergentes também é fundamental.
A governança acadêmica precisa estimular inovação pedagógica, flexibilização curricular e avaliação de impacto dos cursos. Políticas de financiamento público e privado devem priorizar educação que articule excelência projetual com responsabilidade social e ambiental.
Propostas práticas para fortalecer a educação em arquitetura
A partir das análises anteriores, seguem propostas concretas para aprimorar a educação em arquitetura:
1. Reforçar módulos práticos de construção e desempenho para complementar o ensino de projeto.
2. Implantar avaliações formativas e portfólios reflexivos que valorizem processo e produto.
3. Promover projetos integradores com outras áreas do conhecimento e com a comunidade local.
4. Atualizar currículos para incluir competências digitais aplicadas ao projeto, avaliando impacto ambiental e social.
5. Fomentar programas de estágio e clínicas profissionais estruturadas para facilitar transição universidade-mercado.
6. Capacitar docentes em metodologias ativas e avaliação por competências.
7. Criar espaços institucionais para pesquisa em ensino de arquitetura, monitorando resultados e boas práticas.
8. Incentivar políticas de financiamento que priorizem infraestrutura e bolsas para projetos comunitários.
Essas propostas buscam preservar o núcleo do ensino de projeto, conforme observado por Holland, ao mesmo tempo em que respondem a críticas legítimas e atualizam a formação para desafios contemporâneos (HOLLAND, 2026).
Casos exemplares e iniciativas inspiradoras
Diversas escolas e programas pelo mundo experimentam modelos inovadores: estúdios comunitários, laboratórios de fabricação digital integrados ao ensino, cadeiras interdisciplinares de sustentabilidade e práticas clínicas com prefeituras. Essas iniciativas mostram que é possível aliar excelência no ensino de projeto com respostas concretas a demandas técnicas e sociais. Documentar e compartilhar essas experiências entre instituições fortalece a educação superior em arquitetura como campo de prática reflexiva e inovadora.
Conclusão: críticas como oportunidade de renovação
As críticas à educação em arquitetura são, em grande medida, sinais de que a profissão e a sociedade esperam mais do que a repetição de modelos tradicionais. No entanto, é preciso reconhecer que o ensino de projeto permanece, como observa Charles Holland, um pilar essencial da formação arquitetônica (HOLLAND, 2026). A tarefa das escolas é combinar essa força formativa com reformas curriculares, metodológicas e institucionais que respondam aos desafios contemporâneos: sustentabilidade, tecnologia, justiça social e necessidade de maior diálogo entre academia e prática profissional.
Transformar críticas em oportunidades exige diagnósticos rigorosos, políticas de incentivo à inovação pedagógica, investimento em infraestrutura e um compromisso coletivo de docentes, estudantes, profissionais e gestores. Só assim a educação em arquitetura continuará a formar profissionais capazes de projetar ambientes que respondam às complexas demandas do século XXI.
Referências (citadas no texto conforme ABNT)
HOLLAND, Charles. It is easy to find fault in architecture education. Dezeen, 09 fev. 2026. Disponível em: https://www.dezeen.com/2026/02/09/architecture-education-charles-holland-opinion/. Acesso em: 09 fev. 2026.
Fonte: Dezeen. Reportagem de Charles Holland. “It is easy to find fault in architecture education”. 2026-02-09T10:00:28Z. Disponível em: https://www.dezeen.com/2026/02/09/architecture-education-charles-holland-opinion/. Acesso em: 2026-02-09T10:00:28Z.





